
Não conseguimos chegar a tempo ao funeral, o que eu agradeci. Eu não gosto de funerais. Fico deprimida o resto do dia. Nunca gostei. E não gostava principalmente naquela ocasião. Deitada no sofá, olhando confortavelmente o escurecer lá fora, consigo me lembrar de vários vagos e breves momentos daquele tarde, da nossa marcha por um lugar frio e do silêncio que as pessoas faziam. Era um sinal de respeito, obviamente, parecia que Deus também estava de luto, era um dia sombriamente nublado com ventos congelantes.
Eu consegui ver meu avô, no entanto, era algo que eu preferia não ter feito, era mórbido, perturbador. Não era como eu me lembrava, ele estava muito branco, consegui ver um lugar onde a funerária não tinha passado a maquiagem, achei um serviço mal feito. A feição também não lembrou em nada o meu avô, era sólida, imutável, feia. Era um recipiente similar a uma lata de refrigerante vazia.
Eu queria entender melhor tudo o que estava acontecendo, mas com o decorrer dos acontecimentos era como se eu soubesse o que acontecia e não compreendesse de forma emocional, tudo era muito simples pra mim e pra mais ninguém, como se eu não fosse relacionada à situação ou como se fosse uma encenação boba e que logo acabaria, nada sério, facilmente resolvido. Mas a morte não se resolve e o que me assusta é o fato de estar ciente disso e mesmo assim, não estar.
As pessoas começaram a ir embora depois de um tempo, senhores de idade formalmente vestidos e outros em maltrapilhos, senhores sérios e secos, ocos, provavelmente amigos do meu avô, conhecidos, admiradores. Eu sempre achei interessante examinar os olhares das pessoas, o olhar diz muito sobre alguém, porém o que aconteceu naquela tarde foi algo anormal, ninguém me olhou nos olhos, desviavam toda e qualquer tentativa minha de ver algo mais profundo, como se soubessem o que eu tentava fazer.
Minha avó foi a última a sair do cemitério, não a ouvi dizer nada durante todo o tempo, ela só olhava pro corpo dele e não mexia um músculo sequer. Não a vi chorar, mas também desviava dos meus olhares. Ela agiu como devia, esteve lá o tempo todo ao lado dele, recebeu todos os pêsames, providenciou o velório, enterro e nossos quartos com máxima eficiência e o mais importante, se manteve firme perante os conhecidos, a família e ouso dizer a si mesma, seria hipócrita da minha parte se eu achasse isso insensível.
Lembro-me também que meu irmão se pois ao meu lado, ele estava bem diferente de mim, chorou o tempo todo, apertava a minha mão com força e quase suplicava pra que eu fizesse alguma coisa, eu fazia cara de choro ao olhar pra ele, não sei se era porque eu não gosto de vê-lo chorar ou porque eu queria fingir que eu não era tão indiferente. Em um determinado momento, meu irmão me abraçou, já não chorava mais, na verdade, não falou nada, só me protegeu do frio e então fez algo inesperado, ele se afastou um pouco de mim e fixou o olhar nos meus olhos. Atemorizei-me, senti a vergonha na alma e senti o labéu perante a minha consciência. Ele se afastou depois disso, meu irmão e eu temos algo em comum, não precisamos falar ou fazer muitas coisas pra mostrar o que queremos dizer. Eu sabia que ele não reclamava por eu não sentir nada e sim por não admitir isso.
Do outro lado do túmulo, minha irmã estava no colo do meu pai, em paz, invejei-a, era notável como ela agia, mesmo sendo tão nova e naturalmente falante, permaneceu quieta o tempo todo, ela sabia que aqueles eram dias silenciosos e inusitadamente respeitou aquilo, apenas quem a conhece sabe o quanto é difícil fazê-la ficar quieta por uns minutos… Ela dormiu todo o caminho do cemitério até a casa da minha avó, apesar de todo o seu temperamento adequado, ela não entendia muito bem o que estava acontecendo. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo.
A casa continuava aconchegante, o sol se pois, eu tentei dormir.





















